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Em crise, Stagium resiste e luta para não acabar

Sem subsídio do governo, companhia lança Temporada pela Continuidade do Balé para arrecadar fundos

Aos 45 anos, o Ballet Stagium enfrenta a pior crise de sua história e pode fechar. Para que isso não ocorra, a companhia decide reagir com a força para resistir, o que sempre distinguiu o seu percurso. Está usando a dança para convocar a sociedade para a Temporada pela Continuidade do Ballet Stagium, nos dias 25, 26 e 28, no Teatro Sérgio Cardoso, cujas portas foram abertas pela Associação Paulista dos Amigos da Arte. O objetivo é que, mesmo quem não possa assistir porque mora em outra cidade, também colabore, comprando um ingresso vendido a R$ 100. O grupo apresentará O Canto da Minha Terra, criado por Décio Otero no ano passado, sobre Ari Barroso, que contará com a presença das cantoras Célia e Celma.

‘O Canto da Minha Terra’. Reverência à obra do compositor Ari Barroso

Além dos 3 espetáculos, essa ação é acompanhada de duas outras, lançadas neste domingo, 25: a organização de uma petição pública pelo reconhecimento do Ballet Stagium como Patrimônio Cultural Brasileiro e a criação de um Fundo de Recuperação, que necessita arrecadar R$ 25 mil a cada mês para pagar o salário dos bailarinos. “O comportamento deles é heroico, são guerreiros, pois há quase um ano dançam sem receber o salário integral”, conta Edgard Duprat, que atua na frente que trabalha pela sua continuidade, ao lado dos outros bailarinos Fábio Villardi e Marcos Palmeira.

Márika Gidali, que fundou a companhia junto com Décio Otero, diz ser difícil aceitar o que está acontecendo. “Estão nos colocando em uma vala comum, como se não tivéssemos feito nada, ignorando o que somos e a nossa contribuição à cultura brasileira. Não é correto o que estão fazendo conosco, tentando nos apagar da história que ajudamos a construir. Precisamos de uma luz no fim desse túnel para continuarmos. Precisamos de um financiamento.”

Sem subsídio governamental, restou ao Stagium vender seus espetáculos. Todavia, depender só dessa receita inviabiliza a sua sobrevivência. “O Stagium merecia um carinho maior por parte de nossos gestores, que fingem desconhecer o que fizemos e continuamos a fazer. O problema não é a inexistência de verba para a dança, mas o fato de ela estar mal distribuída. Para enfrentar a gravidade da situação, a minha única arma é continuar criando. Por isso, no aniversário do Stagium, em outubro, estrearemosPreludiando, que entra em cena custando R$ 1 mil de produção, para provar que nós não desistimos, mesmo quando as dificuldades parecem inviabilizar tudo”, diz Otero.

Duprat comenta o desequilíbrio na verba destinada à dança: “A classe é desunida, mas precisamos mudar essa atitude. O Stagium recusa-se a continuar ser mantido à margem. Não queremos fazer apelos dramáticos, queremos ser reconhecidos pelo que somos e merecemos”.

Marcos Palmeira, que começou a dançar no grupo em 1999, agora atua também como administrador. “O balanço financeiro revelou que nossa situação é muito grave, por isso formamos essa frente de trabalho dedicada a viabilizar a nossa continuidade”.

Para Fábio Villardi, que está com o Stagium desde 1975, quando entrou na escola (profissionalizou-se dois anos depois, estreando em Kuarup), a situação nunca foi tão grave: “O Stagium já enfrentou muitas crises e sempre foi em frente, mas agora, precisamos chamar a atenção da sociedade e das instituições públicas para o risco que estamos correndo”. Edgard Duprat complementa: “Precisamos vender todos os ingressos da Temporada para a Continuidade do Ballet Stagium. Necessitamos do apoio e da solidariedade de todos”.

Repertório revê a história recente do País

Fundado em outubro de 1971, em São Paulo, o Ballet Stagium separou os tempos da dança no Brasil, demarcando um antes e um depois. Inaugurou um jeito de misturar a técnica do balé com assuntos locais e com ele desbravou o Brasil, provando que o balé podia falar português. Dançou no Xingu, desceu o Rio São Francisco, dançando na areia, participou de desfile de escola de samba. 

Na ditadura, mostrou a força da arte quando vozes eram silenciadas. Nesses 45 anos, continua fazendo da dança uma convocação para se pensar o mundo. Suas obras falam sobre a questão do negro, dos índios, da América Latina, dos direitos humanos, do colonialismo português. Seu repertório estampa a história recente do Brasil. Décio Otero, seu autor, deveria ser reverenciado por haver consolidado nosso balé moderno. 

Fonte: Folha Online

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